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Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de que o clero não tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do padre Annat, do padre Lémoine, e d'outros casuistas, tão agramente invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada vez mais a acção n'outro tempo tão vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem á luz; o coração reclama, bem que timidamente, seus direitos; a consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradições, não repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar. Verdade é que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas á vida futura, e notabilissimo caso! não insistem nas consequencias praticas, no tocante á vida presente. Este ultimo facto, muito significativo, provém dos casuistas. Foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do céo. Como não soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da , e não ousassem embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram audazmente a moral. Graças lhes sejam dadas, que isto de peccados mortaes está por um fio! O assassino, mal lavou as mãos, e o perjuro mal lavou a lingua, são admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas; é ainda Isaias e S. Paulo a bradarem; mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa é o tolerante padre Lémoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma capitalista, uma burgueza opulenta não podem viver de favas, nem trajar de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a perfeição negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos. Descobrir, porém, no complexo dos actos dos homens, o limite exacto do dever, isso é desvario: ou prohibir, ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros nús, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das esmolas, a lisonja, a ambição, a cupidez, a ingratidão, as desavenças, tudo passa, tudo é venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padre póde ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o céo promettido ao ladrão que se accusa, o perdão da adultera, e involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias, facilitando a expiação. Pois os primitivos christãos não tinham ouvido fallar do bom ladrão, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor? Comparem com a disciplina de hoje a de então que eu referi. Se o padre Lémoine lesse nas catacumbas um capitulo da Devoção commoda, o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco de Salles o tractasse bem.