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Atualizado: 6 de outubro de 2026
Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o fundo do prato com os seus botões: Que mulher conheci eu por lá que valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça? Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto: Cantai-me a vida, e o sonho transitorio! Cantai, emquanto á dor busco remedio Nos vastos caldeirões do refeitorio.
Por ceu, por mar e terras procuramos O Espirito que enche a solidão, E só a propria voz na immensidão Fatigada nos volve... e não te achamos! Ceus e terra, clamai, aonde? aonde? Mas o Espirito antigo só responde, Em tom de grande tedio e de pezar: Não vos queixeis, ó filhos da anciedade, Que eu mesmo, desde toda a eternidade, Tambem me busco a mim... sem me encontrar!
Para soffrer nasci; abraço a minha cruz; busco o tormento... Não devo extranhar os espinhos da desdita. Quem foge á sua sorte? Oh! Deus... concedei-me um raio de esperança e talvez volte a ser feliz. A minha voz não canta, hoje só suspira e geme.
Mais o ouro escondeu no abysmo, e sombra, Devendo ser do mérito a corôa, Quasi sempre he do crime o premio, e causa. Mas eu duros metaes deixo nas sombras: Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro, Que em sua face a Natureza mostra.
Mil vezes determino não vos ver, Por ver se abranda mais o meu penar: E se cuido de assi me magoar, Cuidai o que será, se houver de ser. Pouco me importa ja muito soffrer, Despois que Amor me poz em tal lugar; E o que inda me doe mais he só cuidar, Que mal sem esta dor posso viver. Assi não busco eu cura contra a dor, Porque, buscando alguma, entendo bem Que nesse mesmo ponto me perdi.
O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas, Com a lanterna accesa, errante, á luz do dia, Buscando o varão forte e justo da Utopia, Privado de paixões e d'emoções terrenas. Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas E que mais alto puz a sã Philosophia, Ha muito busco em vão ha muito, quem diria! O mais cruel ideal das concepções serenas.
Na phantasia te pinto, Fallo-te, responde o monte, Busco o rio, busco a fonte, Endoudeço, e não o sinto: Domingas no valle brado, Responde o eco Domingas; E tu inda te não vingas De me ver doudo tornado! Se a alma ver-se não póde Onde pensamentos ferem, Que farei para me crerem? Voltas. Se n'alma huma só ferida Faz na vida mil sinais, Tanto se descobre mais, Quanto he mais escondida.