Nem deixarão meus versos esquecidos Aquelles que na sêde gastadora Se fizeram no copo tão subidos, De Lyeo a bandeira vencedora: Um Daniel fortissimo e os temidos Lacaios, por quem sei que sempre chora Da Chamusca e Louredo o vinho forte, E outros a quem Thetis causa a morte.

Certamente celebrado! por que durante o delicioso dia, o moço do Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, não cessou d'empurrar o portão da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Condessa de Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marquezes de Cója felicitando; da tia Louredo com «parabens ao destemido sobrinho»; da marqueza d'Esposende «esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!»... E o ultimo do Castanheiro, com exclamações: Magnifico!

Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marqueza de Louredo, a «tia Louredo», que morava a Santa Clara, esbarrou no Rocio com José Lucio Castanheiro; então empregado no Ministerio da Fazenda, na repartição dos Proprios Nacionaes.

Tambem as bebedices mui famosas D'aquelles que andaram esgotando O imperio de Baccho, e as saborosas Agoas do bom Louredo devastando; E os que por bebedices valerosas Se vão das leis do reino libertando; Cantando espalharei por toda a parte, Se a tanto me ajudar Baccho, e não Marte.

E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro Reis!... Por fim, moido, sem socêgo, com a madrugada clareando nas fendas das janellas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro repellão aos lençoes, saltou ao soalho, abrio a vidraça e respirou deliciosamente o silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta.

E tambem sei que tem determinado Da virem buscar vinho aqui mui cedo, Mas ter-lhe-hemos um tal ardil traçado Que não cheguem a ver o de Louredo. Á justiça darás logo recado Que estes galantes prenda, que sem medo Pelo caminho roubam, pela estrada, E com furtos bebem na jornada.

A bebados ouvira que viria Uma gente de copo tão estranha, Pela charneca, a qual esgotaria Tudo quanto Louredo e Lagem banha; E com beberes novos venceria A todos os famosos d'Allemanha. Altamente lhe dóe perder a gloria Na taça em que de todos tem victoria. que de Evora teve sogigado Os bebados e o vinho, e nunca caso Lhe tirou por insigne ser louvado dos imigos d'agoa do Parnaso.

E por mandado seu buscando vamos A terra que Louredo em torno rega, Depois que os quartos todos esgotamos Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega. Mas razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade se não nega, Quem sois, que vinho é este que buscaes, E se tendes do d'Evora alguns signaes.

O gran Vasco Bagulho, a quem convinha Fazer seu caminho desejado, Que Borrachões não poucos cheos tinha, Para buscar Louredo tão amado; Recebendo o piloto que lhe vinha, Foi d'elle alegremente agasalhado. Despede-se com gran contentamento, C'o guia, sem saber o falso intento. Dest'arte despedida a gente honrada, Começou a seguir o falso guia.

E todavia não se despegava do espelho, n'uma contemplação agradada, recordando mesmo a recommendação da tia Louredo, em Lisboa: «Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, não se enterre na provincia! Lisboa está sem rapazes.