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«Mas para sua traição e maldade ser mais abonada e espantosa, n'este mesmo tempo começaram a metter o insolente povo em pensamentos de guerra, e defensão da patria para o desmaginarem dos temores, e desconfianças que n'elles viam. Maldade foi esta nunca vista, nem lida em historia antiga, nem moderna, porque, se nos metteram a todos nos contractos, e partidos em que andavam com Castella, fôramos rendidos, ou entregues com menos deshonras, e perdas. Porque não estava Philippe desarrazoado nos partidos, e condições que nos commettia, ainda que nunca as cumprira, como fez a elles; mas estes senhores, para melhor fazerem seu proveito com este rei estrangeiro a quem pretendiam ganhar a vontade, quizeram elles sómente com os seus parentes e amigos ser os que negociassem esta contractação para que o povo (que d'estas meadas não tinha mais suspeitas e receios) na resistencia, e defensão que fizessem lhes acrescentasse a elles merecimentos e serviços para com sua magestade. E, assim, que palliadamente se communicavam todos n'esta conjuração com cartas, e correios muito tempo antes da morte do rei cardeal. E depois d'ella (que é caso de grande espanto) correndo entre elles esta linguagem de chamarem aos da conjuração sisudos, tendo por nescios e doudos a todos os que, não sendo da sua liga, queriam antes morrer valorosamente em defensão da patria que vêl-a entregue por traições e manhas, sem ordem nem justiça, a seus inimigos com perpetua infamia do nome portuguez, chamando aos taes por escarneo os leaes; de maneira que n'este tempo em que o reino ardia em motins e confusões, em temores e esperanças, suspenso e confuso do successo d'este negocio, começaram suas senhorias a ratificar mais seus ardis, e traições com mandarem cartas e provisões por todo o reino ao estado ecclesiastico em que pediam e recommendavam aos prégadores e curas das igrejas que claramente dissessem ao povo nos pulpitos, e suas estações que se animassem á defensão do reino, apparelhassem armas e fortificações nos muros, porque elles tinham mandado prover os arraiaes, e ordenado fronteiros-móres, para o que passaram provisões a fidalgos para isso como foi a D. Diogo de Menezes na comarca do Alemtejo, D. Luiz de Portugal na comarca de Thomar, etc. E assim, com estas falsas mostras de leaes, alvoroçaram o povo a falsas esperanças de liberdade e defensão para de todo ficar perdido, e abatido no futuro. Possivel é que algum dos cinco governadores tivesse santo e leal intento n'este desenho; porque se affirma que alguns lhe resistiram, e que o arcebispo de Lisboa não quiz que dentro da cidade se publicasse, nem prégasse este apercebimento; mas elles todos juntos não fizeram mais n'este negocio da liberdade portugueza que o acima dito, sem metterem mais cabedal ou fazerem mais despezas para este effeito que de papel e tinta.