Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixões que devastam, das nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradicções medonhas de que erriçamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos debaixo dos nossos cançados pés?

Uns olhos verdes e profundos, como os abysmos do mar, a tornavam simultaneamente imperiosa e meiga. A pequena mão aristocratica, eclipsava-se-lhe por vezes sob as rendas e os puffs do vestido. E o , ai, o era um primor, um verdadeiro primor.

O portuguez foi arrojado ao rio com algumas pancadas na cabeça; mergulhou, veio á tona da agua, fincando-se na quilha do barco, á maneira de rémora, pendurou-se n'um dos bordos, os francezes convergiram para o ponto, os caixões escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro com tal arte ajudou á catastrophe, que se virou o barco: francezes e caixões tudo se sumiu nos abysmos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da justiça providencial.

«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei. Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca!

Da minha carne as ulceras corrompe-as a lembrança da impia atroz folgança, que a Deus me arrebatou. Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia.

Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem. O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre ti. Estou quasi a persuadir-me disso. De quê? De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do qual a minha quéda é inevitavel.

Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, estão hoje sob o tecto gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre.

Elle é a hydra, a Carne, o incontinente, O orgulho nos abysmos submergido, O que anda sempre em nós, o cão batido, O espirito da Duvida, a Serpente, Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira, Elle não é nem Vicio, nem Mentira, Nem synonimo de Mal e de Impureza!... E eu bem sei, negro symbolo apupado, Velho satyro, vil, calumniado, Diabo! que te chamas «Natureza!» *Em toda a parte*

«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia exacta das minhas impressões. Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se afigurar á tua imaginação foram as suas palavras. Não posso descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto.

«Os meus vinte volumes e o meu tinteiro de ferro estão hoje sob o tecto gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre.