Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri. Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é.

Neste momento a visão desvaneceu-se, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam: Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor me enviara, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.

Eu cri ver a liberdade humana despontando tenue nos horisontes da vida do povo desde os tempos wisigothicos. Para o sr. Muñoz a noite profunda da escravidão durou nesses horisontes até a fatal jornada do Guadalete.

Louco!... porque não tive a resignação, para oppôr ao marulhar tremendo das vagas da desventura! Louco!... porque cri na sanctidade do amor; ajoelhei perante um archanjo celeste, e senti o fogo da inspiração a enroscar-se-me voluptuosamente pelos membros! Louco, emfim, porque soube desprezar a imbecillidade dos homens pelo gozo ineffavel d'uma ventura celeste!

Tomei parte no Exercito gloriozo Que foi bater-se por Israel, um dia! Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria, Não creio em nada! tudo é mentirozo! Não vale a pena amar e ser amado, Nem ter filhos d'um seio de mulher Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado! Não vale a pena um grande poeta ser, Não vale a pena ser rei nem soldado E venha a Morte, quando Deus quizer! St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.

Cri, por algum tempo, na sanctidade do teu amor, e illudi-me, illudi-me sim, vibora dolosa e maldicta! Triste verdade!... Ah! Ah! Ah! Neste ponto, Alvaro soltou uma d'essas gargalhadas estridentes e medonhas, que causam horror até ao maior heróe d'este mundo.

Que eu por versejasse, a ninguem ficará sendo maravilha; antes, sim, a podéra ser, que de tal assumpto tal volume se estillasse; mas as rasões d'isso de si mesmas se confessam. eu disse, que os annos que por sumi, me foram totalmente desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos jámais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.

Enganei-me, enganei-me, paciencia; Accreditei as vozes, cri, Ormia, Que a tua singeleza igualaria Á tua mais que angelica apparencia. Enganei-me, enganei-me, paciencia; Ao menos conheci que não devia, Pôr nas mãos de huma externa galhardia O prazer, o socego, e a innocencia. Enganei-me, Cruel, com teu semblante, E nada me admiro de faltares, Que esse teu sexo nunca foi constante.

Aqui senti d'Amor a mor fineza, Como foi ver sentir o insensivel, E o ver a mi de mi proprio perder-me: E, emfim, senti negar-se a natureza; Por onde cri que tudo era possivel Aos lindos olhos seus, senão querer-me.

«Todas estas interrogações dirigia a mim proprio, apertando, por vezes, entre as mãos convulsas, as minhas faces afogueadas em colera e subito desalento. Procurei repousar o meu corpo abrazado, e não pude. Experimentei distrahir-me, e tudo cri impossivel. Que fazer, pois? Appellar para a acção da divina Providencia; isso seria, além de demasiada temeridade, um puro lazzaronismo.