1 - 9 de 9
Vêdes aquelles telhadores na aresta do vigamento? aquelles mineiros sepultados nas entranhas da terra, longe dos raios beneficos do sol? Vêdes o lavrador curvado sobre o sulco? o pallido tecelão diante das machinas devoradoras? tanto operario sem nome avergado ao pezo de um trabalho ingrato e sem descanço? Pois a maior parte d'aquelles é condemnada, por modo que os seus soffrimentos n'esta vida são preludios dos que os esperam na outra. Aquella mãe que não póde vestir seus filhos, e que relança olhares invejosos ao palacio visinho, onde os cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella; aquelles mendigos que vagamundêam nos campos; os orphãos que se recolhem aos hospitaes; os soldados que marcham para as fronteiras; os proscriptos esquecidos no solo estrangeiro, condemnados, quasi todos condemnados, meu Deus! Um repleto conego, risonho e bochechudo, sem familia nem cuidados, repastando-se quatro vezes por dia, mas sem escandalisar ninguem, baixando a vista em presença das mulheres, pontual nos officios, está mais visinho do céo que todos aquelles desgraçados; e mais perto ainda do céo está um sancto anachoreta. Chorar, soffrer, trabalhar não é nada. Se choram, não choram as suas culpas, é a miseria dos filhos; se trabalham não é por penitencia, mas sim para grangear commodidades. Lagrimas de Babylonia, diz S. Agostinho. Avidos suores, vãs angustias! Muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermão da montanha, e elles nem o comprehendem nem jámais o entenderão.